sexta-feira, 9 de agosto de 2013

Tópicos em Filosofia da Mente


                                                                                                            Antonio Durval Campelo Barauna


         Os estados mentais apresentam ou possuem um conteúdo ou significado proposicional próprio. Os estados mentais traduzidos, por exemplo, em “acreditar” ou “desejar” algo, são tratados como “atitudes proposicionais” por expressarem atitude própria de um sujeito em relação a alguma coisa, objeto da atitude. Quem crê, crê em algo, quem deseja, deseja alguma coisa. O objeto do desejo ou da crença é o “alvo” da atitude proposicional. Não há falar-se em dualismo, interacionismo ou reducionismo. O fenômeno da crença ou do desejo, utilizados nos exemplos estão associados à linguagem. À linguagem psicológica.  
O mental trabalha com conteúdos psicológicos, não compreendendo, desta forma, uma linguagem que envolva propriedades materiais, o que significa que existem coisas às quais nos referimos utilizando um vocabulário que possua significado material (referencia a objetos físicos, por exemplo) e outras coisas às quais nos referimos, fazendo uso de vocabulário psicológico (ações, desejos e estados mentais em geral). 
Donald Davidson diz, sobre a relação entre o mental e o físico, cuja principal particularidade é afirmar a redução ontológica ao mesmo tempo em que abre mão da redução conceitual entre os dois domínios. Segundo o monismo anômalo, como tal teoria é chamada, o mental acontece no mundo, não sendo traduzido, entretanto, por leis físicas. O fenômeno mental não é explicado por leis físicas.
Aliás, no tocante à prova que se busca do mental, o que o distingue não é o fato de ser privado, subjetivo ou imaterial, mas que possua intencionalidade. As ações intencionais se incluem claramente no domínio do mental.
O monismo anômalo se assemelha ao materialismo ao afirmar que todos os sucessos são físicos, mas repele a tese, considerada essencial ao materialismo, de que todos os fenômenos mentais admitem explicações exclusivamente físicas. O monismo anômalo nega a existência de leis estritas conectando o mental e o físico. De um lado, ele se aproxima do materialismo quando afirma que todos os eventos são físicos; de outro, rejeita a tese, essencial para os materialistas, de que os fenômenos mentais podem receber explicações físicas. Contudo, embora impeça a existência de leis psicofísicas estritas e, por conseguinte, a redução psicofísica, o monismo anômalo postula que as características mentais são de algum modo dependentes de, ou melhor, supervenientes às características físicas. As entidades ou eventos mentais são físicos, mas as descrições ou tipos mentais não são redutíveis, a conceitos físicos. Há uma diferença essencial de categoria entre o mental e o físico o que impede que tipos mentais sejam tipos físicos, o que resulta na impossibilidade dos tipos mentais serem capturados pela “teia nomológica da teoria física”. Nenhum elemento puramente físico, independentemente da sua complexidade, possui a mesma extensão de um predicado mental. 
Contudo, de que forma a referida diferença pode ser compatibilizada com o papel causal de certos eventos mentais no mundo físico? Harmonizar a liberdade com o determinismo causal é um dos casos especiais – e, de resto, bastante antigos – deste problema, já que o determinismo causal requer justamente a captura por, ao tempo em que a liberdade aponta para a fuga de qualquer teia nomológica. Assim, ao defender tanto a dependência causal quanto o “anomalismo” dos eventos mentais, Davidson, em última análise, não pretende senão, explicar como a aparente contradição entre a liberdade e a necessidade natural no âmbito das ações humanas pode ser de maneira convincente, eliminada.
A partir de uma “perspectiva descritiva” o componente individual de um pensamento ou de qualquer outro evento mental intencional é uma descrição na qual o objeto referido é o objeto que está assentado unicamente na descrição, é o objeto do pensamento. Quando alguém pensa um objeto por descrição (“água”, por exemplo), o conteúdo do seu pensamento parece independente do objeto particular referido pela descrição. Ou seja, meu pensamento sobre “água” será sempre o mesmo da descrição, mesmo que seja diferente ao que se refere (eu posso estar diante de algo que não é água e, mesmo assim pensar que é água).
A interpretação da conduta verbal mostra os aspectos que sobressaem da explicação da conduta em geral: não ganhamos nada considerando as partes separadamente, pois somente o contexto do sistema – linguagem - pode especificar o seu papel. É importante lembrar ainda que, para quem interpreta o “sistema” linguagem, a suposição é de que a fala é uma fala verdadeira, considerando-se como verdade algo que está relacionado com a nossa capacidade de aprendê-la e realizá-la (aprender algo e realizar algo).
A mente é tudo aquilo que, na experiência humana, podemos afirmar que possui um conteúdo semântico, como os nossos pensamentos, intenções e crenças e que podem ser explicados evocando fenômenos ou processos que se passam no âmbito individual e isolado da mente. Chamamos de internalismo, individualismo ou subjetivismo  a crença segundo a qual os conteúdos do pensamento de um sujeito são inteiramente individuados pelos estados internos ou estados intrínsecos desse sujeito,  tomando-se tais estados num sentido amplo, o que pode incluir também estados cerebrais. Nesta tradição, “quais entre nós entenderia que nosso pensamento está em outro lugar que não dentro, ‘na mente’?”.
Do ponto de vista de uma “perspectiva não-descritiva”, um sujeito pensa num objeto não pela via da descrição, mas antes em virtude de estar em alguma relação real ou causal com o objeto. Nesta perspectiva, os pensamentos e outras atitudes proposicionais de um sujeito se conectam com seus objetos não pela descrição, mas mais diretamente em virtude da relação na qual o sujeito se encontra com aqueles objetos. O componente singular do pensamento não é equivalente a uma descrição que permanece constante em qualquer estado do mundo; antes, o conteúdo do componente singular do pensamento é individuado parcialmente pelos objetos de que trata. Imaginemos um sujeito que está diante da água e pensa ou crê que água, e que se encontra, noutro instante, numa situação contrafactual na qual está diante de algo parecido com a água, mas que não é água e ele pensa e crê que água: posto que o mundo objetivo é diferente, seus pensamentos têm, segundo uma “perspectiva não-descritiva”, conteúdos diferentes. Ou seja, uma perspectiva não-descritiva sobre o significado inspira uma concepção externalista do mental e do significado.  O externalismo não afirma que não temos estados subjetivos ou intrínsecos; afirma apenas que os pensamentos e outras atitudes proposicionais de um sujeito não podem ser individuados no seu conteúdo inteiramente por esses estados subjetivos e intrínsecos, mas sim que podem ser individuados parcialmente pelos objetos, eventos e acontecimentos do mundo exterior à mente subjetiva.
É o que devemos esperar do externalismo: considerar que a autoridade da primeira pessoa, a perspectiva da terceira pessoa e o caráter social da linguagem, no contexto intersubjetivo da interpretação e da conversa comum, devem se combinar e não se excluir.



Referências
DAVIDSON, Donald.  Ensayos sobre acciones y sucesos. Barcelona: Crítica, 1995.
SILVA FILHO, Waldomiro José. Mente, Mundo e Autoconhecimento. Trans/Form/Ação, (São Paulo), v.30(1), 2007, p.151-168.

     

1 Comentários:

Blogger Maxwell Morais de Lima Filho disse...

Prezado Antônio Durval,

Qual é o seu e-mail de contato? Parabéns pelo blog! Queria saber se há espaço para divulgação de artigos sobre Filosofia da Mente no mesmo.

Atenciosamente,
Maxwell Morais

max.biophilo@gmail.com

18 de agosto de 2013 17:45  

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