quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Elos Mantidos: Política e Administração Pública na Bahia (1958-1962)


Antonio Durval Campelo Barauna

As eleições de 1962 na Bahia polarizaram-se entre o discurso municipalista interiorano, personificado por Lomanto Junior, e forças políticas implantadas nos centros urbanos, reunidas em torno de Waldir Pires. O vencedor, Lomanto Junior, teve, alem da sua base municipalista original, sustentação de partidos rivais no plano nacional e local, o PTO e a UDN. Candidato comum de Juracy e Jango, foi também apoiado pelo PR de Manoel Novais e por quase toda a tradição autonomista reunida no PL. Waldir contou com o PSD e, tentando compensar as perdas decorrentes de dissidências, fez alianças com siglas menores (PDC, PTN e PSP) tendo também o apoio do PCB. O cenário remete ao ano de 1954, com Lomanto derrotando agora o candidato de Balbino, formando uma aliança semelhante àquela armada por Vargas à ocasião, só que, neste momento, unindo um PTB mais conservador a uma UDN no governo, para vencer um PSD mais oposicionista, um balbinismo reciclado à esquerda.
Vale ressaltar, entretanto, que nem todas as forças conservadoras estavam ao lado de Lomanto, assim como o apoio de Jango e do PTB não evitou que parte da opinião popular seguisse Waldir. O êxito de Lomanto começou na fase pré-campanha que, como de praxe na política baiana, envolveu duplo enredo: enquanto nas disputas de bastidores “exércitos” eram mobilizados para a guerra, publicamente pregavam-se expectativas de conciliação. A conciliação geral esse via inviabilizada pelos impasses nos entendimentos interpartidários. Entretanto, a substituição do primeiro-ministro Tancredo Neves por Brochado da Rocha, com apoio da UDN, abriu caminho para o entendimento entre Juracy e Jango, com vistas à sucessão baiana, para o que terá concorrido a indicação de Miguel Calmon para ministro da Fazenda do novo gabinete. Em um quadro regional no qual a pacificação estava descartada, dispunha agora o governador de trunfos que lhe davam vantagens competitivas. Por esta brecha agiu o senso de oportunidade de Juracy Magalhães Jr. para emplacar Lomanto junto a Jango, munindo-se de melhores argumentos para seduzir também a UDN baiana.
O afastamento entre Juracy e Balbino contrariava os interesses políticos de Antonio Carlos Magalhães, construídos durante o mandato de deputado estadual. Era tão escassa a sua margem de manobra naquelas circunstâncias que o seu silêncio no noticiário jornalístico só foi quebrado ao frustrar-se a expectativa de entendimento para repor o nome de Miguel Calmon: “Entendi-me com as principais figuras da política baiana e sempre afirmei que só um político poderia unir pessoas de todos os matizes e, ao mesmo tempo, realizar uma grande obra administrativa: o dep. Miguel Calmon. (A.C. Magalhães. Estado da Bahia, 11.06.1962, p.2).  Antonio Carlos chegara a uma interessante antecipação, em 1962, de um dilema político que se tornaria crucial um ano e meio depois. No contexto de uma conspiração e de um bem-sucedido golpe, aquilo que era, em 1962, escolha entre alternativas conciliáveis, tornar-se-ia decisão imperativa entre caminhos antagônicos, e ele terminaria fazendo, na sua adesão à rota golpista e na sua inserção mais geral na ordem militar, a opção pelo caminho da subordinação da política à razão tecnocrática, situação na qual facilmente identificamos um dos principais motivos do nosso atraso. O servilismo a qualquer governo, que deixa de lado, em benefício do governante ou do seu grupo, os reais interesses o estado.     
Juracy tinha preferência, para a sua sucessão, no seu secretário de governo Ruy Santos, mas sabia que ele não teria chances eleitorais. Tentou lançar o seu secretário de Interior e Fazenda Josaphat Marinho, mas a sua pré-candidatura de foi retirada no ultimo dia da convenção udenista. Vitimado pela lomantização da UDN, Marinho terminou integrando a chapa de oposição como um dos candidatos ao Senado.
A participação da Igreja católica no pleito foi intensa. Era a aposta no anticomunismo e na ostentação da fé cristã. Criou-se um clima de caça às bruxas. Reuniram-se vários bispos da Igreja, sob o patrocínio do Cardeal D. Augusto Álvaro da Silva, para organizar a Aliança Eleitoral pela Família (ALEF) na Bahia. Criou-se uma comissão para examinar a vida dos candidatos e discrimina-los entre bons e maus, mas tais noções tinham clara tradução política e ideológica, ficando clara a preferência do clero pela candidatura de Lomanto Jr. A lista feita pela Igreja tinha predominância de candidatos da UDN, mas dela não constava o nome de Antonio Carlos Magalhães, mesmo sendo esse próximo a Juracy, logo, com acesso o Cardeal.
A vitória de Lomanto Jr. foi, assim, não obstante a retórica renovadora, reação pragmática da política real assediada por aspirações modernizantes, mas ainda colada na tradição. Interpretação diferente é a de Cid Teixeira, para quem a ascensão de Lomanto ao governo representou, ao menos, promessa de quebra na reprodução das elites tradicionais da Bahia (Teixeira, 1988). O triunfo serviria à reversão de concessões e de condições adversas – pelo posicionamento de Lomanto em 1964 – sem que se tivesse de pagar o preço da descontinuidade do processo iniciado nos anos 50. Na Bahia, no tocante à política, os elos não seriam perdidos. 

Referência
DANTAS NETO, Paulo Fábio. Tradição, Autocracia e carisma – A política de Antonio Carlos Magalhães na modernização da Bahia. Belo Horizonte, Editora UFMG, 2006.

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