quinta-feira, 3 de março de 2011

O método nas “Regras para a direção do espírito”

Antonio Durval Campelo Barauna


IV

O método é necessário para a procura da verdade



V

Todo o método consiste na ordem e disposição das coisas para as quais é necessário dirigir a agudeza da mente para descobrir a verdade. Observamos isto exatamente, se reduzirmos gradualmente as proposições intrincadas e obscuras a outras mais simples, e se depois, partindo da intuição das mais simples, intentamos ascender pelos mesmos graus, ao conhecimento das demais



VI

Para distinguir as coisas mais simples das complicadas, e investigá-las com ordem, convém, em cada série de coisas em que deduzimos diretamente algumas verdades de outras, observar qual a mais simples e como todas as outras estão mais ou menos ou igualmente afastadas delas



VIII

Se, na série de objetos a procurar, deparamos com alguma coisa que o nosso entendimento não possa intuir suficientemente bem, há que deter-se aí, sem examinar o que segue e evitando um trabalho supérfluo.

O aspecto “matematizante” do método cartesiano consiste em concentrar-se nos “problemas perfeitamente entendidos”, ou seja, nos problemas passíveis de uma expressão em termos de uma equação matemática. Reduzir um problema aos seus elementos mais simples, atingindo a singularidade do dado examinado, e avançar passo-à-passo, é um conselho adequado no âmbito das disciplinas formais, como a aritmética ou a geometria, e pode estender-se, segundo Descartes, à descoberta da verdade em qualquer campo.

As Regras para a direção do espírito contêm uma exposição geral do método cartesiano e considerações muito concretas acerca de álgebra e análise, convém, portanto, a propósito de tal colocação, por o problema da relação entre a matemática e o método.

Descartes defende a universalidade do método, sua aplicação a todas as questões, incluindo as de metafísica. Enfatiza a fundamentação do método pela certeza, a distinção entre método e intuição, as etapas do método, o modus operandi, e a ordem. Nas Regras, a ligação do método cartesiano com uma ciência em especial, a ciência matemática, parece extremamente estreita, dando-nos a entender que o objetivo das mesmas pode ter sido mostrar que problemas complexos da ciência natural podem ser explicados dentro de um modelo matemático.

O filósofo busca encontrar regras universais que se apliquem aos “vãos problemas em que os calculadores e os geômetras têm o costume de se divertir nos seus lazeres” (RDE, IV).

“Todo o método consiste na ordem e disposição das coisas para as quais é necessário dirigir a agudeza da mente para descobrir a verdade. Observamos isto exatamente, se reduzirmos gradualmente as proposições intrincadas e obscuras a outras mais simples, e se depois, partindo da intuição das mais simples, intentamos ascender pelos mesmos graus, ao conhecimento das demais” (RDE, V).

O método das Regras, entretanto, contém obscuridades. Diz o filósofo na regra IV:

“entendo por método, regras certas e fáceis, que permitam a quem exatamente as observar, nunca tomar como verdadeiro algo de falso, e atingir, sem qualquer inútil esforço do seu espírito, mas aumentando sempre, o saber, atingir o conhecimento verdadeiro de tudo o que será capaz de saber”.

Tal definição implica existência de uma ordem universal e única, pressupõe que todas as ciências estão ligadas em conjunto e formam um todo. Descartes se exerce num clima em que o método é integrado e unitário, de sorte a fazer sentir o matematicismo de todas as áreas do saber.

Nas Regras, o filósofo apresenta as etapas do método, ora enunciando o método em análise, “dividir cada uma das dificuldades em tantas parcelas quantas forem possíveis”, ora em síntese, no qual se deduzem as conclusões dos axiomas, estando cada passo contido no que veio anteriormente, ora ambas. Ali, o pensamento cartesiano está dominado pela concepção racionalista da ciência, tendo-se esta como sistema de enunciados ou proposições que não precisam ou não são susceptíveis de demonstração, dada à sua evidência, e aos quais chamamos de princípios, ou , enquanto proposições conseqüentes, se deduzem destes.

Ciências, para Descartes, parecem ser, originalmente, apenas a aritmética e a geometria, ou, pelo menos, estas aparecem para ele como ciências exemplares. Diz ele que “toda a ciência é um conhecimento certo e evidente” (RDE II) e todos os demais conhecimentos, que são apenas prováveis, devem ser rejeitados. Entre as ciências já estabelecidas somente a Aritmética e a Geometria possuem a característica de “certeza” e “evidência”, e por isso, são mais certas que as demais. Quanto ao objeto destas disciplinas, Descartes afirma que ele é “puro” e “simples” e, consiste inteiramente em conseqüências que se podem deduzir racionalmente. Porque o objeto da Matemática é o mais claro, mais evidente e mais certo, ele é, então, o mais simples para Descartes. Segundo diz, a Aritmética e a Geometria são modelos de certeza, por isso, dificilmente o homem pode enganar-se com elas.

A ciência exige uma fundamentação que exclua todas as proposições simplesmente prováveis. As hipóteses, não podem reclamar o caráter de exatidão da cientificidade, o que restringe o do saber à ciência perfeita, comprovada, ou seja, ao que é conhecido de um modo claro e indubitável (RDE, II). Descartes identificou na Matemática, a Matemática universal como uma ciência geral que explica tudo o que se pode investigar acerca da ordem e da medida, e sobrepuja em utilidade e facilidade as outras ciências que lhe estão subordinadas; é o meio de tratar tudo aquilo em que se examina apenas a ordem e a medida, “sem ter em conta se é em números, figuras, astros, sons ou em qualquer outro objeto que semelhante medida se deve procurar” (RDE, IV).

Descartes diz que os dois modos de conhecimento são a intuição e a dedução, ambos compreendidos como operações do nosso entendimento. Não possuem estes, carga empírica, pois Descartes, ao contrário dos escolásticos, não restringe a nossa receptividade à sensibilidade, de que a razão extrairia por abstração os elementos comuns, sendo a intuição intelectual reservada aos anjos ou “puros espíritos”. Por intuição intelectual, ele entendeu o conceito de mente pura, que nasce apenas da luz da razão, e , na qual não se propaga nenhuma dúvida. A dedução foi compreendida como aquilo que se conclui, necessariamente, de outras coisas conhecidas com certeza (RDE III). O filósofo prossegue, explicando que “muitos fatos sem serem imediatamente evidentes, são conhecidos com certeza, bastando, para isso, que sejam inferidos de princípios verdadeiros e conhecidos, por meio de um movimento contínuo e ininterrupto de pensamento”.

A metáfora que Descartes emprega nas Regras ou no Discurso, para ilustrar sua idéia de dedução é a de uma corrente composta de muitos elos. Os geômetras conseguem, com uma longa série de inferências simples, provar teoremas complexos, mantendo cada passo do argumento, em estreita relação com o seu antecedente, e formando, no processo de raciocínio como um todo, uma corrente ininterrupta.

No entanto, com todo o seu entusiasmo pelas “longas cadeias de raciocínio dos geômetras”, Descartes jamais deixou de considerar a dedução um conhecimento mediato, a segunda melhor forma de cognição. Somente a intuição traz em si a certeza imediatamente evidente que surge quando o olho da mente se defronta com uma proposição cujo conteúdo é de todo claro e evidente.

O filósofo expõe uma concepção elevada e exigente do que seja conhecimento. N’As Regras para a direção do espírito, ele introduz aquilo que viria a se tornar um termo técnico em sua filosofia, a saber, scientia. A palavra, segundo Cottingham, no seu “Dicionário Descartes” vem do verbo latino comum para “conhecer”, scire; mas tem também conotações que se aproximam do projeto cartesiano de obtenção de uma ciência unificada, englobando todos os objetos da cognição humana, o projeto, como ele diria mais tarde no Discurso do Método para “bem conduzir a razão e buscar a verdade nas ciências”.

A concepção cartesiana de ciência e de conhecimento, apoia-se, ainda conforme Cottingham, numa perspectiva dualista que separa o mundo da extensão (Res extensa), mundo material, exterior, considerado como uma enorme máquina matemática, do mundo dos espíritos pensantes ou racionais (Res cogitans), que é o mundo interior e não possui nenhuma da extensão. Esta separação estabelece, na realidade, uma total independência do mundo da extensão em relação ao mundo interior do ser humano, que se tornaria um outro elemento importante na constituição da ciência positivista.

O método estabelece firmemente que, no pensamento científico ou filosófico, devemos seguir a “ordem das razões”, o nexo da natureza e não a “ordem das coisas”. No final da Regra IV Descartes observa: “Resolvi ater-me obstinadamente, em minha busca pelo conhecimento das coisas, a uma ordem definida, começando sempre pelas coisas mais simples e mais fáceis, jamais prosseguindo para alem destas até que não pareça haver mais nada a ser descoberto a seu respeito”. Na Regra VI ele afirma que “o maior segredo do método” é “distinguir as coisas simples das complicadas”. O intelecto humano tem o poder de “intuir” essas “naturezas simples”, são objetos inteligíveis, pontos de partida fundamentais para o conhecimento: simplesmente as vê com uma percepção mental simples e direta, que não dá margem a erro, uma vez que as naturezas simples são “todas imediatamente evidentes e nunca contêm qualquer falsidade (RDE XII).

Da exposição dos preceitos, depreende-se que o método cartesiano pode ser encarado sob um duplo aspecto. O aspecto crítico: o método é o resultado do esforço da vontade, graças ao qual o entendimento recusa o que não for claro e distinto (primeiro preceito). O segundo aspecto, que pode ser denominado heurístico, estabelece que o método é um conjunto de processos de descoberta. Neste ponto é importante assinalar que as regras de Descartes são mais abundantes e flexíveis. Isto é testemunhado pelo fato de as Regras terem permanecido inacabadas, o que manifesta a impossibilidade de resolver, por procedimentos semelhantes, todos os problemas.

De acordo com Descartes, a tarefa do método é ordenar as proposições, os estados de coisas que lhe correspondem, de modo a que os últimos se fundamentem mediante os primeiros sendo, portanto, o estabelecimento de semelhante ordem, o seu objetivo.



Referências Bibliográficas


ABBAGNANO, N. Dicionário de Filosofia. São Paulo: Martins Fontes, 1999.

COTTINGHAM, J. Dicionário Descartes. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor 1995.

DESCARTES, R. Regras para a Direcção do Espírito. Lisboa: Edições 70, 1997.

DESCARTES, R. Discurso do Método. São Paulo: Coleção “Os Pensadores” Ed. Nova Cultural, 1991.

JESUS, L. Marques. A Questão de Deus na Filosofia de Descartes. Porto Alegre: Edipucrs, 1997.

RODIS-LEWIS, G. Descartes e o Racionalismo. Porto: Rés Editora, Sd.



















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