quinta-feira, 3 de março de 2011

Mito e Cultura – Homero, Hesíodo e a narrativa mítica

Antonio Durval Campelo Barauna

Normalmente associa-se o conceito de mito a mentira, ilusão ou lenda. O mito não é uma mentira, pois é verdadeiro para quem vive. A narração de determinada história mítica é uma primeira atribuição de sentido ao mundo, sobre o qual a afetividade e a imaginação exercem grande papel.
Podemos dizer que os mitos são tão antigos quanto o Homem, criaram as culturas e fazem parte das suas bases estando assim inseridos no alicerce cultural da humanidade. Através das narrativas míticas as culturas se desenvolveram e se perpetuaram, seja como narrativas repetidas em torno de uma fogueira por xamãs de tribos primitivas ou cantadas por poetas (aedos) nas cortes dos nobres gregos ou nas praças das polis como Corinto, Tebas e Atenas.
O pensamento mítico grego teve início no séc. XXI ao VI a.C. Nasceu do desejo de dominação do mundo, para afugentar o medo e a insegurança. A verdade do mito não obedece à lógica nem da verdade empírica, nem da verdade científica. É verdade intuída, que não necessita de provas para ser aceita. É, portanto uma intuição compreensiva da realidade é uma forma espontânea do homem situar-se no mundo.
Falar de cultura grega é falar de mito. Existe uma ligação muito forte entra ambos. Os mitos na cultura grega foram, sobretudo, formas populares que visavam uma formação específica como, por exemplo, a de um guerreiro que poderia se espelhar em Aquiles.
Encontramos, implícito nos versos de Homero e Hesíodo, o imaginário conceito de mito resultante da experiência grega da linguagem de que esses versos se tornaram os tradicionais documentos literários. Indagar como se descreve esse implícito e imaginário conceito de mito é o mesmo que perguntar como se descreve essa experiência mítica da linguagem de que os versos de Homero e de Hesíodo se tornaram, para pesquisadores e estudiosos, as fontes primárias.
As narrativas míticas conectam o homem ao divino, o divino à terra, o homem à terra, o homem ao homem, os deuses ao tempo, o presente ao futuro, o futuro ao passado e o homem ao passado e ao futuro. E o que é isso senão o papel da cultura? Acredita-se que a gestação dos mitos gregos tenha acontecido em torno de três mil anos antes de Cristo e que tenha resistido e migrado oralmente até o século VIII a.C. , quando temos o aparecimento da escrita (do alfabeto) na cultura grega e conseqüentemente da possibilidade de conhecermos o primeiro grande poeta, Homero.
Homero é o primeiro poeta grego de que termos notícia. Em seus dois imensos poemas, Ilíada e Odisséia sistematizou a mitologia e tornou-se uma das fontes mais importantes para o conhecimento dos Deuses. Fala-se que ele era um aedo, um poeta que vivia nas cortes ou nas praças apresentando-se com sua lira, mantendo-se com o que ganhava nessas apresentações. Frisamos isso para entender que Homero em momento algum teve a intenção de sistematizar a religião ou ordenar o panteão grego, servindo-se apenas da liberdade que a poesia desfrutava no tratamento dos deuses, pois os dogmas religiosos gregos diziam mais respeito aos cultos do que às narrativas sobre os deuses, assim os poetas gregos podiam tratar livremente dos episódios que os envolviam. O sucesso ou fracasso de suas obras dependia da aceitação popular que tivessem e não necessariamente de qualquer coerência ou coerência religiosa.
Homero, nos poemas já citados, narra duas grandes aventuras em que os atores e agentes são humanos, vivendo dramas humanos sob a interferência dos deuses. A Ilíada trata do cerco que os gregos fizeram à cidade de Tróia (Ílion), pois o príncipe troiano Paris raptou a esposa do rei grego Menelau - esse é o plano terreno dos acontecimentos. No plano divino, temos as posições e interferências dos deuses em relação aos acontecimentos na terra. Há deuses que protegem os gregos e deuses que lutam pelos troianos e que também combatem entre si durante os 10 anos de duração do cerco. Homero apresenta e caracteriza os deuses gregos de acordo com a tradição oral que recebera do passado cultural da Grécia e das necessidades narrativas de seu poema.
Ao longo do tempo muito se tem discutido sobre a verdadeira autoria da Odisséia, atribuída a Homero, embora sem resultados conclusivos. A obra é uma exaltação do povo grego ao herói mortal Ulisses, conhecido também como Odisseu. A história tem início quando Menelau, rei de Esparta, e Agamenon, rei de Atenas, convocam todos os reis e nobres da Grécia para ajudá-los a montar uma expedição contra Tróia. Diante da convocação, Ulisses finge estar louco. Descoberta a farsa, só lhe resta partir para a guerra. Após a tomada de Tróia, tem início a viagem de Ulisses, cheia de peripécias e aventuras, de volta a Ítaca, seu reino, após o término da vitoriosa campanha de guerra contra os troianos.
Novamente, há a interferência dos deuses nas peripécias dessa aventura marítima e a duração da ventura é também de 10 anos. Ulisses segue sua jornada, protegido por alguns deuses e odiado por outros enquanto em Ítaca sua esposa, Penélope, está sendo forçada a escolher um novo marido e um novo rei. Novamente, Homero apresenta os deuses e os caracteriza segundo suas posições e vontades em relação aos acontecimentos terrenos.
Outra importantíssima fonte de conhecimento das narrativas míticas é o poeta Hesíodo. No século VII aC, Hesíodo propõe-se a sistematizar os mitos e a ordenar o panteão grego. Hesíodo viveu por volta de 800 a.C. na Beócia, região situada no centro da Grécia. Passou a maior parte da vida em Ascra, a aldeia natal. Sabe-se que viajou a Cálcis, na ilha de Eubéia (a cerca de 800m da costa grega), com o objetivo de participar dos jogos funerários realizados em honra de um certo Anfidamos, e foi o ganhador do prêmio. Sabe-se também, de acordo com as informações do próprio poeta, que depois da morte do pai, seu irmão Perses corrompeu os juízes locais e apoderou-se da maior parte da herança que ambos fariam jus.
Por esse motivo, em suas obras, Hesíodo exalta particularmente a virtude da justiça, cuja guarda atribui a Zeus. Hesíodo relata ainda que foi pastor, até que lhe apareceram as Musas e ordenaram-lhe “cantar a raça dos benditos deuses imortais”. Dessa exortação nasceram a Teogonia e Os trabalhos e os dias, as duas únicas obras autênticas do poeta que permaneceram. A Teogonia parece ser o primeiro poema escrito por Hesíodo. Trata do surgimento dos deuses e fixa sua narrativa poética entre o caos e a instalação de Zeus no Olimpo. Nesse poema, Hesíodo nos apresenta as divindades primordiais, o nascimento dos deuses e os episódios que levam Zeus ao poder supremo entre os imortais.
Da Terra (ou Gaia, ou Géia) nasceu Urano, o primeiro rei dos deuses, que contraiu matrimônio com sua mãe. Entre os filhos de ambos encontra-se o titã Cronos, que se rebelou contra Urano e, depois de castrá-lo, governou o universo. Cronos foi destronado pelo filho Zeus, que fundou o panteão helênico clássico. Os Trabalhos e os Dias, trata de temas mais terrenos como a vida social grega além de obras a respeito da genealogia de deuses e heróis. Na obra Hesíodo enaltece a vida tranqüila do campo e os esforços dos camponeses, com o objetivo de levar princípios morais à juventude e afastá-la das atividades guerreiras em benefício das agrícolas.
A primeira parte é dedicada a mitos que ressaltam a necessidade do trabalho duro e honesto. Exalta a Justiça, filha predileta de Zeus e única esperança dos homens. A segunda parte do poema tem propósitos didáticos: estabelece normas para a agricultura e para a educação dos filhos, além de mencionar superstições do dia-a-dia. Diferentemente de Homero, Hesíodo não se ocupou das esplêndidas façanhas dos heróis gregos. Seus temas são os deuses, regentes do destino do homem, e o próprio ser humano, com suas fadigas e misérias.
Dividiu a história da humanidade em cinco períodos, da idade do ouro à do ferro, das quais o último correspondia ao difícil período histórico em que ele próprio viveu. Para Hesíodo, só o trabalho e o exercício das virtudes morais permitem aos seres humanos chegar a uma existência modestamente feliz na adversa idade do ferro. Hesíodo morreu ao que tudo indica, em Ascra.

Do Caos à Corte

Um elemento que caracteriza as narrativas míticas é o seu poder de resistirem igualmente pulsantes e poderosas mesmo diante de variações, contradições e passagens realmente conflitantes. Homero e Hesíodo são fontes seguras das narrativas mitológicas, mas não são as únicas. Relembrando apenas o que foi registrado em palavras, podemos citar os hinos religiosos, as lendas populares que resistiram e encontraram uma forma escrita, Platão e outros filósofos gregos que registraram, criticaram e/ou contribuíram para a mitologia, os autores teatrais (das tragédias e das comédias) e os poemas líricos (poetas órficos) que restaram. Existem ainda as preciosas contribuições romanas para a mitologia e há ainda ilustrações de vasos, esculturas e pinturas que também nos trazem informações sobre os deuses.
Não há, portanto, o que poderíamos chamar de “história verdadeira”, há variantes mais ou menos famosas; todas as variantes são verdadeiras em si, reveladoras de uma verdade simbólica e simbolicamente válidas como respostas psíquicas do homem diante de sua natureza; e todas elas, cada uma das variantes, são altamente estimulantes para as mentes curiosas que as queiram interpretar.
Assim, podemos apenas esboçar os elementos que se repetem mais ou menos constantes em todas as variantes. Do Caos surgem as divindades primordiais: Nix – Érebo, Oceano/Tetis - Geia. Nix é a noite, Érebo, mistério, escuridão da alma. Oceano e Tetis o casal primal de todas as águas, segundo Homero (Hesíodo não os coloca como vindos do Caos, indica-os como titãs). Geia é a mãe de tudo que existe. Geia e Urano geraram os ciclopes (três seres gigantescos com apenas um olho, redondo na testa), os hacatonquiros (três seres monstruosos de cem braços e cinqüenta cabeças) os Titãs, seres especiais, de forma humana e poder divino, que serão os primeiros senhores da terra. São dez para Homero, doze para Hesíodo.
Urano, deitado sobre Geia, não permite que os filhos nasçam. Geia engravida e os filhos ficam dentro dela. Geia incita seus filhos a enfrentarem o pai e Cronus aceita o desafio. Castra Urano e toma-lhe o reino, depois casa-se com a irmã, Réia e será o pai dos deuses. Tiveram seis filhos, as deusas Héstia, Demeter e Hera e os deuses Hades, Poseidon e Zeus.
Cronus, com medo de perder o trono, engole os filhos assim que eles nascem. Réia é mãe, mas não pode criar os filhos. Quando nasce o último filho (o primeiro para algumas variantes), Zeus, Réia entrega ao marido uma pedra enrolada em cueiros que é rapidamente engolida. Zeus é criado livre e retorna para enfrentar o pai e libertar os irmãos. Zeus liberta os irmãos e juntos vão enfrentar o pai e os titãs.
Os deuses saem vencedores, Zeus casa-se com a irmã Hera e forma sua corte no Monte Olimpo, reina sobre a terra e os homens. O irmão de Zeus, Poseidon, reina sobre os mares e Hades reina sobre o mundo pós-morte, o mundo inferior. A corte de Zeus é formada por seus irmãos e seus muitos filhos. É na Teogonia de Hesíodo que encontramos de forma mais precisa e ordenada esse primeiro conjunto de narrativas mitológicas.

Deuses e Heróis

A mitologia grega não faz referência apenas aos deuses, há também um conjunto de seres especiais, mortais de origem híbrida (humana e divina), a que chamamos Heróis. O culto aos heróis, pode ser basicamente entendido como uma evolução do primitivo culto aos mortos, aos reis ancestrais das primeiras das tribos. Mitologicamente, os heróis podem ser reis-míticos, ser aparentados aos deuses por parte de pai ou mãe, ou ainda podem se tratar de divindades menores que encontraram seu espaço entre os heróis. Usualmente os heróis aparecem como pertencentes a uma única narrativa que trata de sua origem, peripécia heróica e morte, diferentemente dos deuses que são imortais e aparecem em diversas aventuras e narrativas. As narrativas heróicas chegaram aos nossos dias das mais diversas fontes, desde as peças de teatro às fábulas e lendas populares, guardando sempre uma forte relação com a forma como nos foi transmitida.
Há um ciclo de narrativas heróicas que gira em torno da Busca do Velocino de Ouro. O herói Jasão reúne num barco chamado Argos uma tripulação de heróis, os argonautas, para participar de suas aventuras em busca de uma pele de carneiro de ouro. Jasão, os heróis da tripulação do Argos e suas aventuras pertencem todos ao mesmo ciclo narrativo. Eurípedes, Píndaro e Apolônio de Rodes são os autores mais importantes que trataram desse ciclo.
Nas narrativas da Ilíada e da Odisséia, Homero, como já dissemos, organiza as obras em dois planos, o terreno e o divino, Tróia e o Olimpo na Ilíada e os locais onde aportaram Ulisses e sua tripulação e novamente o Olimpo na Odisséia. Muitos dos combatentes da Guerra de Tróia são heróis (mortais aparentados ou protegidos especialmente pelos deuses), Ulisses é um herói e em torno desses heróis, suas ações e personalidades, gira a narrativa dos poemas. Herdeiro da tradição épica grega, Virgílio, poeta romano, escreve a Eneida que narra as aventuras do herói Enéas, jovem troiano, citado por Homero, que se salva da queda de Tróia e lança-se a uma série de aventuras.
Outro ciclo importante de narrativas heróicas é o que gira em torno de Hércules. Trata-se de um personagem tão importante que se torna um deus após sua morte passando sua eternidade no Olimpo casado com Hebe, filha de Zeus e Hera. Ovídio, Eurípedes, Sófocles, Píndaro, Teócrito e Apolodoro são os autores que conservaram todos os episódios da trajetória heróico-divina de Hércules (filho de Zeus e da mortal Alcmena), desde o seu nascimento até a sua morte, após os famosos doze trabalhos.
A melhor atitude a se assumir em relação aos mitos gregos é envolver-se com eles, mergulhar na leitura, procurar outras variantes, outras formas como foram contadas essas mesmas histórias. Atividade essencial é remontar o “quebra cabeça”, descobrir genealogias, recompor árvores e complementar histórias. É também importante relacionar a Mitologia com as artes, descobrir os pintores que retrataram os episódios, como os enxergavam, avaliar como os escultores criaram as imagens dos deuses, objetivando encontrar “pistas” para a reconstituição da vida das divindades mitológicas. Outro passo importante é a captura da essência da personalidade de cada um dos deuses, a análise das histórias, na tentativa de descobrir o quanto dessas personalidades estão ainda em nós, de que faceta nossa elas falam. Mas, acima de tudo, é imperativo que os mitos sejam vistos com contornos de vida, como uma mensagem dos vivos aos vivos.
Segundo Jacyntho Lins Brandão “Poucos temas foram tão valorizados em nosso século quanto o mito. Não que antes tenha sido menosprezado, pois o interesse por ele se manifesta desde os primeiros poetas, filósofos e historiadores gregos, atravessa a Idade Média, deságua no renascimento e no iluminismo, numa gama variada de juízos. Entretanto é a partir do romantismo que se constitui a moderna ciência do mito, o que significa que, como em outras esferas, é aí que se encontra o ponto de inflexão cujas possibilidades o século que (quase) passou explorou a fundo”.



Referências

BRANDÃO, Junito de Souza. Mitologia grega (v. I - II). Petrópolis: Vozes, 1987.

BRANDÃO, Jacyntho Lins. “Decifra-me e devoro-te” in Jornal de Resenhas. São Paulo: Folha de São Paulo, 2000.

BURKERT, Walter. Mito e mitologia. Lisboa: Edições 70, 1991.

HESÍODO. Teogonia: a origem dos deuses. São Paulo: Iluminuras, 1992.

_________. Os trabalhos e os dias. São Paulo: Iluminuras, 1992.

HOMERO. Ilíada. Tradução: Haroldo de Campos. Introdução e organização: Trajano Vieira. São Paulo: Arx, 4ª ed., 2003.

HOMERO. Odisséia. Tradução Jaime Bruna. São Paulo: Cultrix, 1994.

JAEGER, Werner. Paidéia: A formação do homem grego. São Paulo: Martins Fontes, 2002.

1 Comentários:

Blogger Felipe Militão disse...

Belo resumo Durval ^^

30 de abril de 2011 14:11  

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