sábado, 19 de junho de 2010

Saramago e o Nobel

João Pereira Coutinho


Após o Nobel, livros ficaram esquemáticos e primitivos
Prêmio deu destaque a português e fez dele maniqueísta e verborrágico

Fernando Pessoa e José Saramago são os maiores escritores portugueses do século 20. Não pretendo ferir sensibilidades brasileiras. Mas poderia dizer que Pessoa e Saramago são os maiores escritores de língua portuguesa também. O juízo não é estético ou literário. É fatual e empírico. Pessoalmente, e para ficarmos nos lusos, prefiro Mário Cesariny ou José Cardoso Pires, dois nomes que o Brasil conhece mal. E, por falar em Brasil, admito que Drummond ou Guimarães Rosa possam rivalizar com qualquer um desses. Mas Pessoa ou Saramago habitam um universo diferente. Basta entrar em qualquer livraria do mundo e fazer o teste. Fernando Pessoa paira acima da média porque, depois da morte, os seus heterônimos ganharam vida própria e saíram por aí, deslumbrando. Saramago, porque recebeu o Prêmio Nobel em 1998. O que não deixa de ser irônico e injusto: se existe um Saramago que interessa como escritor, ele existe antes do Nobel, não depois dele.
Em "Memorial do Convento" ou no espantoso "O Ano da Morte de Ricardo Reis" (a sua homenagem a Fernando pessoa, "et pour cause"...), Saramago oferecia uma reinterpretação estilística dos pregadores lusitanos (como Antônio Vieira), elaborando fábulas de fôlego "humanista" e "universal".
A Academia Sueca sempre gostou desse tipo de exercício e premiou a obra. Saramago agradeceu e, literariamente falando, foi produzindo parábolas atrás de parábolas, cada uma mais esquemática e mais primitiva do que a anterior. "A Caverna" ou "Ensaio sobre a Lucidez", para citar apenas dois exemplos recentes, representam o pior do Saramago pós-Nobel: um escritor moralista e verborrágico com certa atração pelo maniqueísmo mais vulgar.
Curiosamente, o único lampejo da criatividade passada deu-se com o simpático e despretensioso "A Viagem do Elefante". De 2008, é uma história (quase) de aventuras em que o escritor relata, com leveza de tom, a viagem do elefante Salomão pela Europa do século 15, uma oferta do rei d. João 3º ao primo Maximiliano da Áustria.

Honraria insultuosa
Agora, na hora da morte, Portugal prepara-se para honrar o escritor, o que me parece justo. Mas é provável que se prepare também para honrar o "democrata", o que me parece insultuoso. Comunista até ao fim, Saramago assinou algumas das páginas mais intolerantes do período revolucionário português, quando integrou a direção do "Diário de Notícias" no ano quente de 1975. Um período de violência física (nas ruas) e verbal (nos jornais), com Saramago a vestir a farda do fanatismo bolchevique e a salivar de ódio contra os "reacionários" e os "burgueses" (um oximoro, eu sei).
Contra a vontade de Saramago, Portugal acabaria por optar pela via da democracia representativa e da liberdade sob a lei. Uma escolha que sempre soou a Saramago como uma traição essencial dos valores moscovitas que, no século em que ele nasceu e viveu, produziram centenas de milhões de cadáveres.
Nas culturas latinas, a morte melhora sempre o caráter. Só se espera que não se faça o mesmo com a biografia política do defunto.

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