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sábado, 29 de maio de 2010

A Sociologia da Religião de Max Weber

Antonio Durval Campelo Barauna

O que é religião?

Para Weber é impossível definir o que é religião. Quando muito, diz ele, tal definição poderia aparecer no final do estudo que desenvolve na sua “Sociologia das Religiões”, segundo afirma no inicio da obra. Weber não tem a pretensão de tratar da “essência” da religião, mas sim das condições e dos efeitos de um determinado tipo de comportamento comunitário, que para ele só se consegue compreender a partir das experiências subjetivas, das concepções e das formalidades dos indivíduos, ou seja, a partir do “sentido” uma vez que tal comportamento reveste formas extremamente diversas.
O procedimento que obedece a motivações religiosas ou mágicas é, na sua forma primitiva, voltado para este mundo. Esse procedimento é, na sua forma primitiva, um comportamento relativamente racional: mesmo que não seja uma maneira de agir consoante meios e fins, obedece a regras ditadas pela experiência.
Para Weber, as concepções religiosas são cruciais e originárias das sociedades humanas, pois o homem, como tal, sempre esteve à procura de sentido e de significado para a sua existência; não simplesmente de ajustamento emocional, mas de segurança cognitiva ao enfrentar problemas de sofrimento e morte. Procura-se na religião signos de transcendência e de esperança. Assim, Weber preocupa-se em destacar a integração racional dos sistemas religiosos mundiais e não apenas o calvinista (objeto especial dos seus estudos), como resposta aos problemas básicos da condição humana: “contingência, impotência e escassez”.

Qual a Função da Religião?

Weber argumenta que a unicidade de qualquer realidade histórica é fruto de um conjunto de ações de indivíduos guiados por intenções e motivações subjetivas. O interesse de Weber pela religião não se explica assim por uma preocupação ou curiosidade específica pelo fenômeno de per se. A religião interessa a Weber na medida em que ela é capaz de formar atitudes e disposições para aceitar ou rejeitar determinados estilos de vida ou para criar novos. A importância dada por Weber à subjetividade e intencionalidade dos atos sociais nos ajuda, portanto, a entender sua dedicação ao estudo da religião.
Weber afirma que o sucesso do capitalismo depende em parte da “disposição dos homens em adotar certos tipos de conduta racional”. A religião, enquanto elemento historicamente fundamental na conduta humana nas diferentes sociedades se torna um tema de pesquisa importante. Através dela se poderia em certa medida “compreender” os motivos e intenções de um conjunto de ações sociais.
Assim, quando observa que o sucesso do capitalismo moderno requer um novo estilo de vida, Weber passa de seus estudos de economia propriamente dita, para os de religião. Julga que a religião pode ajudar a entender por que alguns indivíduos se dispuseram a abandonar o estilo de vida herdado dos seus pais e outros não. A sociologia da religião de Weber emerge, portanto, desse seu interesse sobre o surgimento do capitalismo. O protestantismo, para ele, teria criado um estilo de vida, um ethos que teria uma afinidade eletiva com o modo de produção capitalista.
Ao levar seus fiéis a se dedicar de forma ascética ao trabalho secular, o protestantismo teria criado uma mão de obra que se motivava para produção de riquezas e para a poupança antes mesmo do sistema capitalista ter força e autonomia para gerar a sua própria motivação.
A ascese e a disciplina para o trabalho em si não eram inovações protestantes. A ascese na tradição católica levou muitos a viver em mosteiros totalmente dedicados a orações e ao trabalho, longe dos prazeres mundanos, mas como estavam retirados do mundo, criavam sua sociedade própria, não afetavam a sociedade mais ampla. Já o protestantismo exigia o ascetismo de todos os fiéis, pois pregava uma ascese no mundo.
Weber enfatiza que a religião é um forte mecanismo capaz de formar atitudes, por meio das relações sociais. Weber, com o intuito de compreender como surgiu e se propagou a racionalidade, encontra na religião, uma explicação para esta indagação. Por isso, o protestantismo passou a ser para ele, um forte indicador para entender a racionalização econômica. No dizer de Cecília Loreto Mariz Weber ao comparar diferentes civilizações descobre um denominador comum, para explicar a racionalidade econômica, sobretudo, por meio das práticas religiosas, constituindo assim, uma matriz cultural do Ocidente.
É certo, portanto, que Weber ao procurar compreender o funcionamento do capitalismo no Ocidente encontra neste, uma forte ligação com a religião. Embora, o seu objetivo, não consiste em dizer que o capitalismo seja fruto do protestantismo. No entanto, ele estudou a relevância social das formas religiosas da vida. Para ele, o ponto de partida da história religiosa da humanidade é um mundo repleto do sagrado.

Quais as implicações políticas da teoria religiosa?


Weber concentrou a sua atenção nas religiões ditas mundiais, aquelas que atraíram um grande número de crentes e que afetaram, em grande medida, o curso global da história. Teve em atenção a relação entre a religião e as mudanças sociais, defendendo que os movimentos inspirados na religião podiam produzir grandes transformações sociais, dando o exemplo do Protestantismo.
A sua abordagem em relação à religião o afasta de Marx e de Durkheim que viam esse fenômeno como força basicamente integrativa e conservadora. Ao apontar para a possibilidade de mudança social através do carisma e da religião, Weber não nega o papel conservador dessa última. Em suas análises históricas de diferentes grupos e movimentos religiosos se pergunta em que circunstâncias as motivações religiosas levam a rupturas com o modo de vida e sociedade dominantes e em que outras apenas os reforçam.
Vale ainda lembrar que, de acordo com Weber, mudanças históricas são fruto de lutas entre grupos de interesses distintos, principalmente entre os especialistas em cada esfera de vida. Assim, a religião é estudada como um campo plural de tensões e possibilidades diversas. Essas tensões são fruto de circunstâncias específicas e conflitos de interesses de ordem material e ideal.
O ethos do puritano, por exemplo, é um dos fatores que permitem a compreensão do surto do capitalismo introduzido, em muito por ele, no mundo do trabalho. Weber diz que o êxito de muitos protestantes em assumir os principais cargos das empresas, numa visão ampla feita por ele, sobretudo, na Alemanha demonstra que há uma ligação entre o sucesso econômico e a profissão de fé na religião. É neste sentido que ele compara o capitalismo a uma empresa a qual têm como objetivo central conseguir o máximo de lucro possível para atingir através da organização racional seus objetivos. Em sua análise sociológica da religião, ele constata que a ascese na tradição católica levou muitas pessoas a viverem nos mosteiros, dedicando-se ao trabalho e a oração. Esse estilo de vida fez com que se criasse um mundo separado. Esse modelo de ascese, contudo, pertencia a um grupo exclusivo.
Por outro lado, o protestantismo exigia a ascese de todos; não em mosteiros, mas no mundo. Segundo Weber Lutero utiliza o conceito Beruf (chamado de Deus) e explica que cada indivíduo é convidado a desenvolver sua vocação dada por Deus. Percebe-se que há um rompimento com o modelo apresentado pelo catolicismo. O trabalho, portanto, desempenhado pelo protestante é dom de Deus em sua vida e, cabe a ele desenvolver cada vez mais este dom, conhecido como vocação. Então, o que agrada a Deus, não está, portanto, relacionado com a “... moralidade intramundana pela ascese monástica, mas sim, exclusivamente, em cumprir com os deveres intramundanos, tal como decorrem da posição do indivíduo na vida, a qual por isso mesmo se torna a sua ‘vocação profissional.
Assim sendo, Weber diz que a “vocação profissional” em Lutero está relacionada com os deveres do mundo. Dado a isto, ele ensina que a crítica mais substanciosa de Lutero em relação à conduta monástica, está, portanto, no fato de ser “produto de uma egoística falta de amor que se esquiva aos deveres do mundo”. A religião nesta perspectiva tem como objetivo expressar o sentido da justificação perante Deus, tem o seu valor expresso somente no agir e no fazer. A ligação entre o conceito de vocação em Lutero e a religião, no dizer de Weber esta no fato de: “A Vocação é aquilo que o ser humano tem de aceitar como desígnio divino, ao qual tem de ‘se dobrar’-essa nuance eclipsa a outra idéia também presente de que o trabalho profissional seria uma missão, ou melhor, a missão dada por Deus”. É preciso, dizer, portanto, que mesmo havendo ligação ente êxito profissional e econômico com o conceito de vocação em Lutero, Weber não afirma que o “espírito capitalista”, por exemplo, seja analisado somente como fruto advindo da Reforma. Dito de outra maneira, algumas práticas capitalistas, em seu dizer, eram mais antiga que a Reforma. “Trata-se apenas de averiguar se e, até que ponto, influxos religiosos contribuíram para a cunhagem qualitativa e a expansão desse espírito mundo afora, e quais são os aspectos concretos de cultura assentada em bases capitalistas que remontam àqueles influxos”.
Weber ao analisar o código de ética de Benjamim Franklin percebe que está imbuído neste um espírito capitalista, no sentido de ter e ter sempre mais. Ele postula, contudo, que o trabalho como fim em si mesmo demonstra que por trás dessa mentalidade está implícita a conseqüência de uma educação religiosa. A religião nesta visão puramente social desperta no indivíduo um sentimento de realização no trabalho. “Essa consideração relativa ao capitalismo no presente mostra-nos mais uma vez como vale a pena indagar de que modo foi possível se formar já em sua tenra idade essa conexão entre capacidade de adaptação ao capitalismo e fatores religiosos.”
Um segundo modelo encontrado por Weber para explicar o êxito do “espírito capitalista” está na origem e na expansão do calvinismo. Segundo ele, em Calvino, por exemplo, o trabalho social tem como meta aumentar a glória de Deus. Segundo Weber o calvinismo serviu de modelo para outras denominações religiosas, mesmo havendo uma fundamentação doutrinal diferente, mas igual coerência ascética. Em seu dizer, o Pietismo, o Metodismo e as seitas Anabatistas e Batistas receberam influências do calvinismo, mesmo com algumas diferenças, sobretudo, acerca da predestinação.
Weber explica que um dos pontos da doutrina calvinista consiste em dizer que cada tempo é valioso, porque cada hora perdida é subtraída ao serviço em honra a Deus. Cabe, portanto, ao homem empregar todas as suas energias em prol desta glorificação; porque quem não trabalha é porque não tem a graça de Deus agindo nele. Em outras palavras: “A falta de vontade de trabalhar é sintoma de estado de graça ausente”. Weber explica que em muitos países, em que predominou a presença do calvinismo, por exemplo, na Holanda, por mais que tenha havido uma presença somente de sete anos, mesmo assim, foi o tempo suficiente para levar as pessoas a acumular capital. A religião, como vem sendo apresentada, demonstra segundo Weber que esta desperta nos indivíduos uma tendência de uma vida burguesa, isto é, a tendência à conduta de vida burguesa. Em seu dizer, esta mentalidade pode ser comparada ao “homo economicus” moderno.
Percebe-se, portanto, que Weber ao realizar uma ampla análise sociológica acerca do papel da religião nas relações sociais, e conseqüentemente na vida política de cada um, encontra tanto no protestantismo, como no calvinismo alguns elementos que ajudam a compreender alguns traços mentores da “origem do capitalismo” no Ocidente. Portanto, seu objetivo consiste em dizer que o protestantismo e o calvinismo teriam proporcionado um estilo de vida, ou seja, um ethos que traz em seu bojo uma idéia eletiva em conjunto apresentado pelo modelo capitalista.
Weber quis provar que as concepções religiosas são, efetivamente, um determinante da conduta econômica e, em consequência, uma das causas das transformações econômicas das sociedades. Dessa forma, o capitalismo estaria motivado e animado por uma visão de mundo específica de um tipo de protestantismo que na sua ação social favoreceu a formação do regime capitalista.

Bibliografia:
ARON, Raymond. As etapas do pensamento sociológico. São Paulo: Martins Fontes, 1999. MARIZ, C. L. A sociologia da religião de Max Weber In: TEIXEIRA, Faustino Sociologia da religião. Petrópolis; Vozes 2003.
WEBER, Max. A Ética Protestante e o “espírito do capitalismo”. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.
WEBER, Max. Sociologia das Religiões, Lisboa: Relógio D’Água Editores, 2006.

Um comentário:

Felipe Militão disse...

Além da percepção secular de Weber, o que Barauna teria a dizer sobre no que o capitalismo se tornou e qual a influência das religiões nele hoje?